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Almir Pascale Cardoso
Campinas / SP

A segunda derrota de Shai'tan


Dolorosamente abriu os olhos, e aos poucos as imagens tornaram-se mais nítidas. Estava em um pequeno e mal iluminado casebre. O chão estava frio e empoeirado, assim, tratou de apoiar-se na velha cômoda ao seu lado, e levantou-se! Viu um grande espelho à sua frente, e após esfregar os olhos, vislumbrou um homem branco de aproximadamente 40 anos, trajando fino terno preto, com camisa, gravata e sapatos da mesma cor. Era uma homem branco, alto, forte e de ótima aparência. Não sabia quem era e muito menos onde estava. Passou então a caminhar lentamente pelos cômodos da humilde construção, pois a dor era imensa em todo corpo! O que havia ocorrido? Havia sido agredido e após bater a cabeça perdera a memória? Tentava lembrar-se, mas pouca coisa lhe vinha à cabeça! Sentiu os dedos das mãos colados um ao outro, e após aproximar as mãos ao rosto, percebeu que estavam banhadas de uma espécie de tinta avermelhada, mas ao cheirar reconheceu um cheiro familiar... sangue! Após alguns segundos de verificação, concluiu que não era seu! Mas então de quem seria? Retornou ao local do casebre onde acordou, e após examiná-lo, viu no canto, os restos de no mínimo duas pessoas, uma era negra e outra branca. Agachou e após contemplar a cena, levantou-se com o pedaço de um braço humano. O cheiro de carne estragada lhe era familiar, e percebeu que estava com fome! Após saciar-se, voltou-se ao espelho, mais não viu sua imagem e sim muitas cenas! Começou a recordar que participara de algo parecido a uma luta... ou a uma guerra! Não tinha certeza do que ocorrera, mas um nome veio a sua mente...*Shai’tan ... Sim! Shai’tan era seu nome! Após alguns instantes, lembrou-se que realmente havia lutado, e já derrotado, refugiara-se entrando em uma espécie de túnel, no fim deste encontrara dois homens com roupas negras, alguns colares e charutos na boca, estes dançavam de forma frenética ao redor de velas acesas e animais sacrificados. Ao perceberem sua presença, os homens lhe ofereceram os animais para alimentar-se. Mas o cheiro de sangue lhe abriu cada vez mais o apetite, e apenas os animais não foram suficientes para saciar sua fome. Assim, atacou ferozmente os dois homens à sua frente, devorando-lhes as cabeças e os corações, e depois, outras partes de seus corpos. Estava a relembrar os fatos quando viu uma imensa imagem surgir no espelho, esta aos poucos foi tomando forma e num salto estava ao seu lado. Um imenso cão de três cabeças, com a respiração ofegante, talvez pela distância percorrida... ou por ter participado da luta... O homem lembrou-se do animal, era **Cérbero! Após contemplá-lo por alguns segundos, uma das cabeças olhou diretamente para seus olhos e de forma respeitosa falou:

- Meu senhor, lembra-se do ocorrido?

O homem ainda confuso, respondeu apenas movendo a cabeça de forma negativa.

O cão então lhe explicou:

- Ele lhe deu outra oportunidade de estar ao seu lado, mas o senhor novamente não conseguiu disfarçar suas intenções! Assim que Ele percebeu... de imediato ordenou às suas forças, que o expulsassem de lá. Meu senhor ainda tentou lutar, mas quando percebeu a desvantagem, procurou um refúgio, e ao ouvir os homens lhe chamando, resolveu se abrigar aqui, o resto acredito que se lembre...

- Sim Cérbero, agora me lembro! Sirva-se dos restos ao seu redor e depois retornaremos a ***Hades! Mas guarde o que lhe direi:

- ****Um dia, subirei sobre as alturas das nuvens, e serei semelhante ao Altíssimo!

Pouco depois, enquanto o casebre ardia em chamas, duas imagens sumiam ao atravessar o espelho!

.......................

*Shai’tan = Satã em Hebraico, que significa adversário.

**Cérbero= Conforme a mitologia grega, era um cão de três cabeças que se alimentava dos corpos dos mortos e guardava a porta de diamantes do reino dos mortos de Hades, a porta do inferno.

***Hades= Conforme a mitologia grega, era o local para onde iam as almas dos condenados, as almas dos mortos, o próprio inferno.

**** Trecho de Isaías 14:12-15

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 12 - Março de 2008