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Mario Rebelo de Rezende
Rio de Janeiro / RJ

Linda Esperança


Peguei a gaiola em Manaus às duas horas da tarde e me estendi na rede lá no final do barco. Estava lotado, uma fileira interminável de redes de todas as cores bem próximas umas das outras. Um barulho infernal, parecia um zumbido. Gente de todos os tipos e idades, conversando sentados nos bancos, fumando cigarros fedorentos, deitados nas redes, arrastando seus pertences pelo convés.
Ainda não tinha aceitado a idéia de que a minha Marina tivesse sido assassinada brutalmente naquela região hostil e desumana do garimpo. Estava me sentindo infeliz e doente, sem nenhuma perspectiva de vida, sem destino. Por isso eu entrei naquele barco que chamam de gaiola, são navios típicos da Amazônia, misto de passageiros e carga, sobem e descem os rios sempre lotados de homens, mulheres, animais e todo tipo coisas tanto para uso próprio como para alimentar o comércio da região, uma festa de frutas bonitas e gostosas: piquiá, bacuri, tucumã, guaraná, buriti, açaí, pupunha, taperebá, caçari, bacaba, etc.
Eu não estava me sentindo bem, com frio e o corpo muito quente, já tinha me arrependido de ter pegado aquele barco em lugar de voltar pro sul. A embarcação parava em todos os portos do rio e em cada parada saiam uns e entravam outros tantos. Sem ter o que fazer, quando não estava dormindo, ficava observando os pescadores na beira do rio toda colorida de vermelho e roxo pela frutinha chamada camu-camu que eles usam pra pescar o tambaqui.
O espaço do barco já estava quase todo tomado por sacos de farinha, milho, arroz, feijão e os mais diversos tipos de mercadorias, e engradados de galinhas cacarejantes, sem contar as caixas de isopor cheias de peixe, de algumas até escorriam água com cheiro desagradável pelo chão. Para sair das redes as pessoas às vezes tinham que pisar sobre as caixas e sacos.
A gaiola seguia o rumo deslizando no banzeiro das águas rio a fora, com o movimento do barco fazendo com que as redes todas juntas uma das outras ficassem se balançando como se fosse um balé. No meio da viagem o motor do barco parou de funcionar e tivemos que esperar cerca três horas na beira do rio infestado de carapanãs até que fosse consertado para podermos prosseguir a viagem.
Pior foi quando eu precisei ir ao banheiro, a catinga e a sujeira realçadas pelo calor eram insuportáveis e aquelas pessoas todas nem se incomodavam, acho que já estavam acostumadas, virou rotina na vida delas.
Quando chegamos num lugar chamado Trombetas, o barco fez uma parada mais demorada, depois eu soube que isso acontece normalmente porque ali foi instalado o maior brega da região, Vila Paraíso, é assim que é chamado o Bordel. Eu não tive coragem de sair da minha rede, não tinha forças, estava suando muito e com uma moleza terrível, acho que estava doente, com febre muito alta. Eu estava tendo pesadelos e tive a sensação de que estava sendo carregado. Eu dormi por muito tempo, apesar de acordar por alguns momentos, eu tinha episódios de delírio.
Numa dessas ocasiões, eu estava deitado numa cama estreita num pequeno quarto e tinha uma mulher passando um líquido cremoso pelo meu corpo todo, eu não sei bem o que ela estava fazendo ou se realmente estava acontecendo, tinha a sensação de um líquido bem frio sendo esfregado desde o pescoço até os pés, ela ficava mais tempo passando a mão nas minhas nádegas, mas logo eu voltei a dormir.
Quando eu acordei de novo, deveria estar anoitecendo, tinha alguém passando um pano úmido na minha testa e na minha boca. Ouvi um barulho de uma porta se abrindo e alguém perguntou:
- Ele ainda está dormindo?
- A febre dele está baixando com o ungüento da mulher das plantas, acho que ele está melhorando, já não está muito agitado, fiz com que ele engolisse o caldo de galinha. - a mulher que estava próximo a mim respondeu revelando uma voz jovem com o volume controlado.
Eu dormi novamente e pela primeira vez eu sonhei com a Marina, ela estava beijando o meu corpo como ela gostava de fazer. Era um sonho muito real, então eu acordei e vi que tinha uma mulher abraçada comigo, com as pernas sobre o meu corpo, os seios grandes sobre o meu peito e com o sexo úmido encostado nos meus quadris. Ela percebeu que eu acordei e saiu da cama, perguntou se eu estava me sentindo bem, parece que eu estava tendo um pesadelo – ela disse.
Eu me lembro que eu balancei a cabeça afirmativamente, mas voltei a dormir. Sonhei novamente com a Marina, estávamos fazendo amor na beira do rio, estávamos muito excitados. Acordei novamente e desta vez tinha outra pessoa comigo, ela estava passando a um pano com água morna em mim, eu fingi que estava dormindo, a sensação era muito gostosa e não queria que ela parasse, depois ela me cobriu e saiu.
Percebi que já estava amanhecendo e eu já estava me sentindo bem melhor, queria me levantar para saber onde eu estava, o ambiente estava na penumbra, eu estava nu e pensei se os sonhos muito reais que tive foram provocados por alguém como aquela mulher que havia saído do quarto. Quem era ela ou elas porque todas a vezes que eu acordei depois de um sonho tinha uma mulher me acariciando? Queria descobrir as respostas.
Me levantei e enrolei o lençol na cintura e fui olhar pela janelinha e descobri que eu ainda estava no barco, parado num porto do rio, era de manhã, deveria ser cerca de oito horas. Logo em seguida entrou uma mulher e disse:
- Bom dia! Parece que você melhorou, você estava muito doente, pensei até que iria morrer de malária, nós te trouxemos pro meu camarote porque você estava tão doente e tão fraco que a tua rede ficava tremendo. Nós cuidamos de você noite e dia. Ficamos com muita pena de ver o estado que você estava, ainda mais sozinho. Eu sei que o teu nome é Anselmo é do sul, pelo visto veio do garimpo, mas as tuas coisas estão todas ali, do jeito que encontramos, nada foi tirado, pode ficar sossegado.
Era uma mulher meio gorda, deveria ter perto de quarenta anos, os cabelos pintados de louro e os olhos castanhos.
- O meu nome é Rosana, tenho uma casa de mulheres, você sabe, pra agradar aos homens, estou levando mais duas que estão aqui comigo. Você tem mulher? Você delirou muito e falava o nome Marina o tempo todo, parece que sonhava com ela.
- Ela morreu, era minha namo... trabalhava num brega lá perto do garimpo, eu ia tirá-la daquela vida, mas ela foi assassinada, mataram pra roubar o dinheirinho dela.
- Coitadinha! – Disse ela. E você, está indo pra onde?
- Não tenho destino certo, peguei o barco porque estava meio desorientado, não queria pensar na vida, estou muito abalado.
Voltei a me deitar na cama, estava me sentindo meio tonto.
- Se você quiser pode vir comigo, pelo menos por uns tempos até você se recuperar, é lá em Santarém.
Eu olhei pra ela e não disse nada.
- Eu vou ver se consigo um caldo, você precisa se alimentar.
Eu agradeci e falei:
- Vou ter que dar um jeito de te pagar tudo isso que a senhora fez por mim.
- Não tem nada que me pagar, não ia deixar você morrer aqui no barco, pra ser jogado no rio e virar comida de peixe. Se você for comigo lá pra Santarém eu vou ficar bem satisfeita. Vou pedir à Carol pra trazer alguma coisa pra você comer, ela ficava aqui contigo também, quando não era eu era ela, é uma boa moça. Descanse e não se preocupe.
Não demorou dez minutos ela entrou com uma tigela fumegando numa bandeja.
- Olá moço, já ficou bom? Não vou mais ter que ficar aqui cuidando de você?
- Você é a Carol? Foi você que cuidou de mim enquanto eu estava com febre? – estava torcendo que fosse, ela me deixou atordoado, era linda. Deve ter sido ela que me fez sonhar com a Marina. Comecei a pensar num pretexto pra ficar com ela perto de mim por mais tempo.
- Às vezes era eu e às vezes era a dona Rosana – ela falou pousando a bandeja aos meus pés na cama. E continuou: - Acho melhor você se sentar pra poder comer, eu vou te ajudar. Você não quer vestir a roupa? Vai ficar assim pelado o tempo todo? Não se importe porque eu já vi tudo, até te lavei com um pano úmido.
Pegou as minhas roupas na mochila e me ajudou a me vestir, depois disse pra eu sentar e me deu a sopa.
- Assim eu vou querer ficar doente de novo, não sabia que o anjo que cuidou de mim era tão bonito – eu disse.
Ela sorriu e perguntou:
- Você me acha mesmo bonita? Mais bonita que a Marina? A dona Rosana me disse que ela era sua namorada e que ela morreu. Você gostava muito dela?
- Muito, eu gostava demais dela, eu ia tirá-la daquela vida, mas não deu tempo, foi lá no garimpo.
- Você sonhou uma vez com ela chegou a se sujar, eu tive que te limpar, fiquei com inveja dela – ela falou me encarando.
Uma lágrima escorreu do meu olho esquerdo embora ambos estivessem marejados. Ela passou a ponta dos dedos no meu rosto para secar a lágrima e disse:
- Não fique assim, não tem jeito mesmo. Você não pode fazer ela voltar. Não tarda você encontra um novo amor.
- É, você tem razão, mas eu tenho uma tristeza muito grande morando aqui no meu peito, chega a doer.
Ela ficou calada me olhando e eu não pude evitar encará-la também, de repente estávamos nos beijando, e descobri que ela era doce como a minha Marina.
- Eu estou gostando de você desde que você estava aqui delirando com febre, fui eu quem ficou aqui a maior parte do tempo, só saia quando a dona Rosana me mandava a ir descansar e ela ficava no meu lugar.
Passei as mãos nos cabelos dela, pretos como o breu da noite e muito lisos, iam até o meio da cintura, acabamos por nos beijar de novo.
Quando nos afastamos ela disse:
- Não sei se a dona Rosana vai me deixar ficar aqui se você já melhorou. Eu vou ser uma de suas meninas, vou fazer a mesma coisa que a sua Marina, ela disse que a gente ganha um bom dinheiro e se diverte. Só assim eu saí daquela miséria que eu vivia lá em casa, o dinheiro que meu pai ganha é pouco pra sustentar uma penca de filhos, a dona Rosana disse pra minha mãe que eu ia trabalhar de empregada na casa dela.
- Então eu vou fingir que piorei de novo pra ela deixar você ficar aqui comigo.
- Não precisa, eu vou dizer pra ela que não é bom você ficar aqui sozinho, que a febre pode voltar e que é melhor eu ficar aqui com você.
- Tá bom! Eu espero, mas não demore, eu estou muito fraquinho – eu disse sorrindo.
Não demorou muito e ela voltou.
- Pronto já estou aqui seu manhoso. A dona Rosana me deixou ficar fazendo companhia pra você, mas falou que se você passar mal pra eu ir correndo chamar por ela.
- Então deita aqui bem pertinho de mim pra me esquentar, eu estou com muito frio.
Ela trancou a porta e se deitou ao meu lado e o amor veio em ondas, como o banzeiro do rio e encontrei uma nova razão pra seguir o meu caminho.
- Sabe minha linda cunhantã, estou gostando muito desse teu jeito, com muita vontade de ter você sempre comigo, assim bem juntinho, esse seu corpo como as curvas do rio, cheiroso como as flores que enfeitam as margens e a boca doce como o abiu.
E ela me olhando nos olhos, o muiraquitã pendente de um cordão espremido entre nossos peitos, me disse o que eu queria ouvir.
- Cunhantã, mas quase cunhã, também quero muito te dar minha carícia pra sempre. Ser sempre sua assim, desse jeito.
Nós saímos do barco em Óbidos, não queria ter outra mulher nas mesmas circunstâncias que facilitaram a morte da Marina, e deixamos um bilhete explicativo para a dona Rosana, junto do qual depositei uma de minhas pedrinhas em pagamento pelo que fez por mim, tanto pela cura da enfermidade como pela aproximação da minha doce Carol que me devolveu a vontade de viver.
Caminhamos de mãos dadas pelo cais em direção à cidade e nos viramos para olhar para a embarcação que proporcionou o nosso encontro.
“Linda Esperança”, o nome escrito em letras azuis no casco nos deu mais vontade de ir em frente em busca de uma nova vida.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 12 - Março de 2008