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Franir Ribeiro Correa
Rio de Janeiro / RJ

A Felicidade é uma bola


Dessa forma, assim solta, pode parecer uma afirmativa sem fundamento, mas vou lhes contar o porquê dessa conclusão.
Um dia desses, após uma ruptura familiar, causada por desavença de considerável vulto, saí caminhando, um pouco sem rumo, tendo como apoio o contorno da Lagoa Rodrigo de Freitas.
Buscava alívio para dor n alma que me fazia doer todo o corpo, sentia-me irremediavelmente triste, sem energia para buscar a porta de saída para aquela situação.
Naturalmente a minha tristeza buscava outras tristezas e meu olhar pousou sob um pequeno grupo de meninos de rua, sujos, mal tratados, tristes, andando sem destino, chutando uma pedra aqui, quebrando um galho ali, amedrontando quem lhes cruzasse no caminho, mas um fato novo surgiu. Um dos meninos encontrou uma bola. Era velha e um pouco murcha, mas isso pareceu não fazer a menor diferença para êles. De imediato, os outros meninos foram ao seu encontro e numa rápida troca de palavras entre eles, saíram correndo seguindo o menino que encontrara a bola e que a segurava por baixo do braço.
Continuei caminhando mas logo os perdi de vista.
Voltei para minha dor, para ferida aberta, não aceitava a morte de mais uma crença, não queria crer que mais uma vez me iludira. A ferida aberta, a energia se esvaindo, sentia-me enfraquecida e desalentada quando avisto o mesmo grupo de meninos.
Não pareciam mais os mesmos meninos, algo tinha mudado. Continuavam sujos, com as roupas surradas e largas, os pés descalços, mas agora eles estavam alegres, barulhentos, correndo de um lado para outro, gargalhando, brincando como qualquer outra criança, jogando bola. Já não estavam sozinhos e não pareciam sem rumo. Eles tinham uma bola e outros meninos jogavam com eles.
Fiquei um tempo a observá-los, a ouvir o som de suas gargalhadas, o jogo de corpo para pegar a bola ou impedir que o outro a tomasse. Tanta vida, tanta alegria. Não sei ao certo quanto tempo permaneci ali, a olhá-los, a senti-los. De repente me ouvi sorrindo com toda aquela brincadeira e o som do meu riso me despertou. Percebi a minha ferida tão pequena frente a tanta possibilidade de vida.
Naquele dia, voltando para casa, compreendi que com certeza poderia ser feliz, era só encontrar a minha bola.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 12 - Março de 2008