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Sidney Bretanha
Arroio Grande / RS

Chuva ácida


“Essa história é baseada em fatos reais e, acreditem ou não, aconteceu na cidade de Arroio Grande, Rio Grande do Sul.”

Por ali todos trabalhavam juntos, era a construção de um enorme prédio comunitário, uma multidão de operários corria sem parar na intenção de terminar o serviço o mais rápido possível. Ninguém ficava parado, a obra era de vital importância para todos, alguns percorriam vastas distâncias, iam muito longe, só para trazer material e mantimentos, um verdadeiro trabalho em equipe, onde todos se ajudavam entre si. Não era preciso bater cartão, nem tampouco alguém se preocupava com salário. Interesses individuais não existiam, todas as atenções eram voltadas para o bem comum. Cada um fazia a sua parte e dava o máximo de si, o sentimento coletivo era legítimo entre dos operários, talvez aquilo fosse o tão idealizado socialismo (ou talvez nenhum deles jamais tivesse ouvido falar em Marx). O fato é que não havia disputas políticas, nem armas entre eles, todos trabalhavam em harmonia, tudo era feito com amor. A obra comunitária aumentava a cada dia, crescendo verticalmente. Havia uma entrada principal, por onde os operários passavam e vários túneis e compartimentos internos para estocar alimentos, todos seriam beneficiados ao final do trabalho. Foram dias, noites, muito tempo de serviço. A construção já estava na fase conclusiva, eles davam os últimos retoques, quando o inesperado aconteceu.

Num dia de sol forte, como que por milagre, desabou uma chuva ardente e violenta sobre o prédio. Foi uma correria para todo lado, as águas invadiram os túneis e corredores rapidamente, a força da chuva ia derrubando paredes, varrendo alicerces, demolindo tudo que os operários haviam construído. Eles não entendiam nada, apenas corriam e procuravam abrigo, mas o massacre foi geral, um imenso dilúvio arrasador. Alguns morriam afogados, outros ficavam agonizando, fraturados e queimados pela chuva. O desespero foi total na comunidade, em poucos instantes tudo estava em ruínas, as partes da obra que não haviam sido derrubadas, estavam alagadas e cheias de cadáveres boiando sobre a espuma das águas. Uma grande tragédia, famílias inteiras destruídas, muitos operários mortos, todo o trabalho jogado fora e sobreviventes vagando sem destino no meio dos destroços. Aquela chuvarada fatal, todo aquele sofrimento só tinha uma explicação, alguém havia mijado no formigueiro.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 12 - Março de 2008