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Tristão
Alencar Pereira Oleiro
Pelotas
/ RS
O
que se planta, aqui se colhe
No interior do município de Pelotas, viveu uma família
de descendentes de alemães. Tinham seis filhos, todos de pouca
idade. Trabalhavam de sol a sol plantando e cuidando de suas plantações.
Milho, legumes e hortaliças não faltavam em sua mesa,
pois a plantação e a horta eram de dar inveja. Eram
prósperos e felizes.
Passado um tempo, veio a seca e tornou áridas muitas áreas
vizinhas à sua propriedade, mas, a família unida, sempre
trabalhando, conseguia retirar da terra o sustento e criar seus filhos.
Num lindo dia de sol, domingo, foram todos à igreja do povoado
próximo para participar do cerimonial religioso. Ao voltar
para casa ficaram, todos, estupefatos com o que viram. A horta estava
completamente destruída e o milharal parcialmente derrubado
e danificado. Um prejuízo irreparável. Foram imediatamente
em busca do motivo que determinou o acontecimento. Haviam cortado
os arames da cerca que protegia a plantação e o gado
do vizinho entrara e promovera todo aquele caos.
Aprofundando suas buscas chegaram à pessoa que cometera a maldade.
Fora o filho do vizinho que carregava em seu coração
o ciúme pelo sucesso da plantação que possuíam,
mesmo sem mediar o quanto era custoso trabalhar tanto para manter
aquela beleza. Ficaram, no primeiro momento, revoltados com o maldoso
vizinho.
Os anos passaram-se e seus filhos foram crescendo e seguindo sua caminhada
pela vida. Dentre todos houve um que ao servir as fileiras do Exército
Brasileiro voltou para casa com alguns problemas mentais o que fazia
com que não raciocinasse muito bem. Mesmo com esta deficiência
o rapaz tinha momento de extrema lucidez e coerência com seus
pensamentos.
Determinada manhã, nublada, sombria e ventosa, o rapaz pôs-se
a olhar para o céu chamando seus pais para virem até
o terreiro em frente à casa e dizia:
- Olhem, vejam, ele está chegando! Não tem nem alma
mais!Veio arrependido pedir perdão!
Todos olhavam para o céu e nada viam. Por algum tempo olhavam,
mesmo com a dificuldade da luminosidade prejudicada do dia, nada enxergavam.
- Vejam - prosseguiu falando - aí vem ele pedir o perdão
pelo que nos fez quando acabou com a nossa plantação
e até fome nos fez passar. Ele não tem alma, mas, precisa
de nosso perdão para que fique em paz.
Nisso viu-se um grande urubu caindo do céu, estatelando-se
no chão do terreiro. Chegou e ficou pousado, olhando, estático,
como se assustado e submisso. Parecia mesmo que o sentenciado pelo
rapaz era a grande verdade.
Como poderia aquele rapaz, que embora tenha sofrido junto com a família
o tal episódio, nunca saberia descrevê-lo, pois possuía
poucos anos de vida quando acontecera? Por outro lado, também,
nunca mais se havia comentado dentro de casa sobre o acontecimento.
Mais ainda, estando sofrendo de problemas mentais como saberia de
detalhes tão importantes? A família guardava revolta
e ressentimento, mas como passar dos anos tudo havia ficado esquecido.
Foram horas a fio de meditação sobre o que estava acontecendo,
e, o urubu ali estava sem arredar o pé.
Em determinado momento, reflexões trouxeram a palavra PERDÃO
e a concordância da família para com “ele”,
ali representado pelo urubu em busca de sua libertação.
Assim foi feito.
A ave alçou vôo e sumiu no céu. O tempo abriu-se
em belo dia de sol como em Ação de Graças. A
família sentiu-se aliviada do fardo da mágoa e do ressentimento
que carregava durante tantos anos em seus corações,
e “ele” se libertou para a vida eterna junto ao Criador.
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