| |
Claudio
de Almeida
São
Paulo / SP
Quaresmeira
Casa de
quarto e cozinha comprada na periferia da cidade. Caíra como
uma luva ao jovem casal recém formado.
Ela simples, porém, jeitosa, esbelta, rosto perfeito, beleza
marcante, puro charme. Conquistava ao primeiro olhar, irradiava simpatia,
difícil escapar a sua meiguice. Nome combinando... Violeta.
Acácio era atlético, físico avantajado, chegava
a assustar aos que o conheciam pouco. No fundo era boa pessoa, homem
cismado, custava se abrir. Vivia melancólico.
Casados de novo, haviam desde o namoro economizado cada tostão
na intenção de comprar sua morada e curtirem tranqüilamente
a vida a dois. Teriam a felicidade eterna...
A nova morada não era o que se possa chamar de palácio,
apenas o que as posses haviam permitido. Pequeno jardim à frente
realçava a pintura nova de cores vibrantes. A casa tinha um
quê de sua dona, simples porém cativante.
Do lado direito morava Dona Concha, espanhola, viúva, servia
de enfermeira, parteira, conselheira, alcoviteira, companhia e alento
a qualquer um que a procurasse ou ela soubesse precisar. Rara a semana
que Dona Concha não visitasse o jovem casal, sempre com um
mimo para Violeta e com a recomendação expressa de que
tudo deveria ser repartido com seu homem. Bolo de cenoura com cobertura
de chocolate, doce de cidra, rabanadas ou uma toalhinha de crochet
que, com certeza, ficaria linda na mesinha da sala e assim por diante...
Do lado esquerdo morava seu Raimundo, nordestino também viúvo
que tinha por distração nos últimos tempos cuidar
do jovem casal e teimar com Dona Concha por quem parecia nutrir sincera
antipatia. Homem vivido, a tudo dava jeito, conserto de ferro de passar
roupa, torneira vazando, pintura de parede, tudo fazia com capricho.
Seu forte, entretanto, era lidar com a terra e o jardim de Violeta
e Acácio era testemunha disso, vicejava como nenhum outro nas
redondezas. Margaridas, amores-perfeitos, avencas e uma delicada quaresmeira
eram o orgulho do dedicado jardineiro.
Tudo corria de normal a contos de fada. Mas... A casa em frente...Do
outro lado da rua. Lá morava a velha Guilhermina, mulher rabugenta,
olhar sempre desconfiado e agourento. Vivia praguejando contra tudo
e contra todos, era realmente desagradável. Contrastava de
maneira impressionante com a neta com quem vivia.
Elisa, saída a pouco da adolescência, exibia um corpo
exuberante, mal coberto pelas sumaríssimas peças de
roupa que tinha por hábito usar. Loira, olhos verdes, sorriso
franco sempre presente em um rosto fascinante. A menina deixava Violeta
em alerta e Acácio encabulado, mas arriscando sempre um olhar
dissimulado.
Lisinha, como era tratada maliciosamente pela vizinhança, também
freqüentava a casa do jardim com quaresmeira. Ora sobre o pretexto
de tomar por empréstimo uma xícara de açúcar,
ora para pedir a opinião de Violeta sobre uma de suas novas
maquiagens ou de seus novos e audaciosos shortinhos.
Enfim, iam tornando-se bastante amigas, íntimas mesmo. Violeta
sempre tímida, recatada. Lisinha irreverente, audaciosa dentro
de sua gostosíssima juventude.
Dona Concha não aprovava tais liberdades, amiudara muito suas
conversas com o casal e, após a morte súbita de Dona
Guilhermina, avó de Lisinha, esquivava-se de encontros com
a “sirigaita”, com resmungava de si para si com ares de
censura e rejeição. Seu Raimundo achava um disparate
a jovem Violeta, senhora casada de respeito, com tantos dengos com
moça tão libertinosa como Lisinha. Já não
cuidava tão bem das plantas do jardim, até a quaresmeira
ressentia-se do abandono do amigo e da dona.
A despeito dos comentários, Lisinha não largava mais
Violeta, até dormir na casa já se habituara. Corria
de boca em boca que nessas ocasiões Acácio dormia no
sofá ou fazia serão no serviço. As más
línguas não medem palavras. A verdade é que ambas
formavam um belo par e Acácio, bem, Acácio continuava
encabulado arriscando de quando em quando um dissimulado olhar para
Lisinha. Dedicava-se agora mais à quaresmeira.
|
|
|