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Márcio Bezerra da Costa
Rio Branco / AC

Homem que engoliu um formigueiro


Mas o dia do Senhor virá como o ladrão de noite; no qual os céus passarão com grande estrondo, e os elementos, ardendo, se desfarão, e a terra, e as obras que nela há, se queimarão.

2a Pedro 3:10


***

Desde quando José acordou sentiu uma pequena dor de barriga, diferente de todas que já havia sentido, mas achou normal. Não era coisa de se preocupar, o mundo moderno tinha dessas coisas mesmo. Um comprimido poderia resolver tão peculiar incômodo, e depois mesmo, nem lembraria.
Pegou sua bicicleta vermelha, o velho chapéu na mesa da varanda e saiu. Conduzido pela pressa, nem pôde observar que o mundo hoje amanhecera diferente, as luzes mais opacas na sua dimensão. As pessoas mais cinzas em suas cores. Seria um sinal de que havia mudado algo no mundo?
Pegou os jornais no distribuidor, mudara de bairro hoje, perguntou por quê, “nada não!” - disse o empregado da firma – “as coisas mudam”.
O que ele não sabia é que o bairro de tantos anos como entregador de jornal, já não existia mais.
À velozes pedaladas, José foi conduzindo seu meio de transporte, distribuindo os periódicos, distraidamente, que nem mesmo percebeu a manchete da capa, aquela que ninguém jamais ousou, mas estava lá, “O Mundo Acabou!”.
Ao passo que foi se pondo a noite passada, e a última, talvez, José observava as mudanças em algumas estruturas simples, mas não estranhava, as pessoas não abriam as portas, os corredores matinais, hoje, e logo hoje, deram-se ao sono contínuo e ainda não acordaram, pensou.
E não irão jamais acordar.
Os raios de sol, sempre de um dourado inominável, hoje num tom azul marinho, colocavam-se à ordem do dia nos seus ofícios de luz, enquanto que incidiram na copas pomposas de árvores intactas e sem vento. Ocorreu-lhe a estranheza por não haver nenhum carro nas enormes ruas da grande Rio Branco. Quis por um momento movimentar-se sobre a grama e espreitar as janelas de vidro, mas ocorreu-lhe ser crime, e de fato o era, mesmo não havendo nada para olhar.
Após uns minutos, acabaram os jornais, a sacola vazia era sinal, o mundo era um eterno entregar de jornais, amanhã e depois, inclusive. Sentiu-se só, e questionou pela primeira vez na vida, por que vivo? E as pessoas por que vivem? Por que não me mato?
Sentiu a ausência de todos, e justamente esse lhe foi o consolo por tão absurdas questões. O remédio são os outros. Sozinho com seu ap 3x4, mas tinha, e sem falta, seu cão, o vendedor de doces, o leiteiro, o jornaleiro, uma ou outra namorada ocasional, que jamais lhe deram espaço para se perguntar quem é aquele homem que olha no meu espelho quando eu estou olhando? Os outros e eu vivemos numa comunhão de mentira, pensou sem refletir. Mas é verdade.
Súbito, veio-lhe a grande idéia de ler um dos jornais que ainda estavam ante as portas, e leu. Era de fato verdade, o mundo havia acabado a noite passada. Ele era um resto do que sobrou, uma espécie de último tijolo a ser demolido. Assim como algumas paredes de pé, alguns cenários, assim como aquele bairro que agora percebia ser apenas um conjunto de paredes sem nada por dentro.
A manchete dizia “o mundo acabou ontem, houve uma espécie de explosão quando Deus passeava por aqui, e começaram a cair coisas, e cores mudaram de tom, e pessoas desapareceram, casas e florestas, e o que sobrou ainda agora se fragmenta, como poeira a espalhar-se para em seguida sumir”.
Então se chegou José a uma poça de lama, onde cintilavam muitas cores se misturando, pôs-se a observar seu rosto qual Narciso a adorar-se. Era ele mesmo, mas faltava-lhe uma orelha. Após dois minutos, esqueceu-se de fazer algo, percebeu-se sem uma das vistas. Empalideceu o rapaz. Era impossível, disse. Mas não, era possível sim, na ausência de algo, o vazio toma forma no espaço, sem pedidos, com seus questionamentos sobre o real. Sentiu-se então filho bastardo do absurdo. Saiu a correr, sem rumo e sem orelha, nosso amigo, mal sabendo que a vida é breve e que viver custa caro. Decidiu-se correr até não agüentar, mas parou. À sua frente, em pequeno movimento, o pronto socorro ainda funcionava. Estava quase vazio. Adentrou à recepção. Suando frio. Uma atendente sem boca fazia gestos de espera como, Aguarde a sua ficha senhor, Mas só estou eu aqui, o que esperar? A mulher gesticulava para José apresentar seu cartão e aguardar. Enquanto fazia seu cartão, já que não tinha, José ensaiava o que ia dizer ao médico.
Após cinco horas de espera, um enfermeiro chamou José por uma porta lateral. Deu de cara com um senhor de branco com uma velha cabeça sobre o pescoço, sem orelhas e sem nariz. Ocorreu-lhe que suas reclamações seriam vãs, mas foi em frente. Contou ao médico, que respondeu “rapaz, o que quer, estamos todos nessa situação, o mundo acabou ontem e ainda hoje estar a se desintegrar, o que posso fazer, já viu minha condição, e a do enfermeiro sem cabeça?”. José respondeu que sim. “Posso fazer algo mais por você?”, perguntou o médico.
Ocorreu em José a idéia daquela dorzinha de barriga, que com a confusão havia esquecido. Foi o médico a examinar-lhe o abdômen, O que sente? Sinto como se algo estivesse se movendo, Será que é, não sei... Acho que é mesmo, desde ontem que os casos têm crescido, vamos ao raio x.
O senhor engoliu um formigueiro, seu José, está aqui o exame, e dos grandes, Mas como? Como, eu não sei... mas está no seu intestino agora. José pegou um encaminhamento para um médico de intestinos. E saiu.
Aos poucos viu, o sol antes azul, agora de um verde estúpido, se pôr e dar lugar à escura noite, e a dor em sua barriga formigava, mas percebeu que não a tinha mais a própria barriga. Foi dormir, afinal, talvez amanhã ainda fosse entregar os jornais.
Pela madrugada acordou assustado, meio a pesadelos de que havia sido assaltado, descobriu-se totalmente invisível. Sobre paredes sem estrutura e sobre um chão vazio de superfície. Tudo havia acabado. E ele ainda permanecia em pensamento. Existia em sentidos, mas como, exclamou, se vejo o nada, de uma claridade sem igual e até sinto o cheiro da falta de cheiro! Existia, sem dúvidas!
Era um ser, ou qualquer coisa desse tipo, que pensava, que tinha consciência do que estava acontecendo, então, logo, existia. O próprio Deus, num desleixo divino, esqueceu-se dele. Se quisesse se deixaria esquecido pela eternidade, se sentia bem escondido. Poderia presenciar a descoberta de uma nova criação de universo, ser o mais nobre expectador, já que era o único que sobrevivera.
Antes de concluir tais pensamentos, uma voz se elevou: “Eis que tudo vejo, e nada se faz sem que conceba antes da eternidade, e tu és aquele que responderá pelo teu povo e descendência, por tentar violar a sabedoria de Deus com o teu pensamento, como antes ninguém fez”.
Mas nada sou, somente procurava um remédio para uma dor na barriga, e tudo foi acabando e se perdendo e desapareci. Virei pensamento, quase um nada.
O pensamento do homem vaga perigosamente, e conclui-se no destruir de Deus. Temos um trato, porém! Não pensas mais, que não mais te ocorrerá a dor na barriga nunca. Por toda a eternidade. Cala-te e serás poupado. Silencia teu conhecer.
Temos sim.
Ao que Deus concebeu forte luz. Nesse momento o formigueiro dentro de José cessou de atormentá-lo, recebendo grande paz, como foi o trato. Deus o deixou na convivência com o nada, a vagar sem pensar qualquer coisa que colocasse a perigo o futuro de novas criações. E retirou-se Deus, deixando-o em contato com o absoluto vazio, como está até hoje, no seu absoluto castigo de purificação.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 12 - Março de 2008