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Varley Farias Rodrigues
Fortaleza / CE

O retirante - Um rio chamado saudade


O sol rompe a escuridão lentamente na estrada infinita. As horas arrastam-se com a pressa dos monólitos. Paisagem comum naquela parte do sertão, e longe o vagaroso pau-de-arara segue comendo a estrada. Nele, o retirante fugindo da seca, corpo franzino, ossudo, levando nas faces os riscos que o tempo talhou, vai tangido pela fome, carregando no coração todos os receios, incertezas e sonhos. Numa das mãos uma trouxa de roupas velhas, um saco com um punhado de farinha, e na outra a benção da mãe que ficou com os olhos vazando. Os olhos das mães dos retirantes, são as nascentes do único rio perene do sertão. Saudade é o nome desse rio.
Ele leva na memória a escassez que é vizinha de todos da Caatinga. A escassez que suga lentamente a vida da criação, deixando ossos e peles espalhados pelo chão e leva ainda as lembranças dos espelhos d´água, agora quebrados e sem uma gota sequer que reflita esperança. Nos braços e mãos, feridas deixadas pelos espinhos duros e pontiagudos que o perfuravam quando, diariamente tinha que se emaranhar pelo labirinto de galhos secos em busca de alguns calangos, uma seriema, uma avoante, ou outro bicho qualquer para alimentar a mãe e uma dúzia de irmãos mais novos, tarefa que lhe foi imposta pela necessidade, bem cedo, tão logo seu pai, um suposto morto desaparecera na vastidão daquela terra falida.
O vento que lambe seu rosto triste, enxuga as lágrimas e dá alguns longos minutos para ele imaginar como serão os dias na cidade grande. Trabalho, muito trabalho, salário, suor, mais trabalho e quem sabe alguma diversão, um arrasta pé, uma moça bonita. Os pensamentos vêm com a velocidade do vento e nem o balançar monótono do velho GMC de 1946, de carroceria de madeira pálida, consegue aquietar sua mente.
O desconforto da carroceria coberta com uma lona esburacada, que mal protege do sol escaldante, torna a viagem penosa e fatigante, mais ele está tão acostumado com sofrimento e tão envolvido pela esperança que nem reclama de nada, nem ele nem os outros. É como se seus lábios estivessem colados. No intimo, ele, como todos aqueles infelizes, gritavam. Um grito mudo, como é mudo para os que não querem ouvir os gritos de socorro do povo da Caatinga. Mais eles aceitam sua sina num silêncio tumular.
Na contra mão da estrada, ele vê a fé peregrinando. Carregando um andor enfeitado com retalhos de tecidos acetinados, e coloridos, uma pequena multidão leva a imagem de São Francisco de Assis. Faz o sinal da cruz em respeito quando a romaria passa, e todos oram em voz alta, a oração do Santíssimo. Ser nordestino é ter fé.
Mais alguns quilômetros seguindo a trilha da estrada, e mais um punhado de gente na contramão. Desta vez, dois homens a frente, franzinos como ele e exaustos, vão levando nos ombros um galho seco, onde uma rede velha balança um corpo embrulhado. É assim que se levam os sertanejos para a sua última morada, ao som de uma ladainha gritada por vozes desafinadas e tristes que acompanham o cortejo. Em respeito mais uma vez, ele se benze e todos oram pela alma do infeliz.
E a viagem segue. A fadiga parece engelhar ainda mais o seu rosto.
Aos poucos, seu torrão vai ficando para trás. As carnaúbas, os mandacarus e a paisagem acinzentada vão dando lugar a um verde vivo, árvores frondosas, com frutas e flores coloridas, planícies, serras e até os rios que fugiram do sertão, estavam por ali, serpenteando a terra rica, alimentando as inúmeras e imensas plantações que vão dar no fim do mundo. Aquela visão bucólica enche-lhe de esperanças e no rosto um sorriso tímido vai se formando e os olhos arregalados brilham como se fossem dois sois. Vê ao longe, plantadas no meio do verde bonito, casas grandes, muitas cabeças de gado, todos fortes, cheios de vida. E nada daquilo é comparável com o mundo de onde veio.
Quando a fome bate mais forte, ele desata o nó do saco de farinha, colhe com mão um bocado e joga na boca com rapidez para o vento não tomar nada, e oferece aos outros retirantes que como ele, fogem em busca de sobrevida.
Muitas horas depois, chegando a cidade grande, tudo lhe chama atenção, a quantidade de automóveis, de gente, de vida, de barulho, e de placas cheias de palavras que não dizem nada a um iletrado retirante. Admira-se com as gigantescas construções envidraçadas espinhando o céu. Na Caatinga, pensou ele, só se ouvia o vento, só via alguns animais condenados pela morte que rondava inquieta, só se sentia o sol esturricando as almas e uma fera devorando a todos por dentro.

Desce, pega sua bagagem, dá uma esticada no corpo para colocar os ossos no lugar, despedisse dos companheiros de viagem, e saí pelas ruas buscando algo para alimentar o animal que o corroia. Vê do outro lado da rua, uma vitrine com algo para comer, e um balcão onde algumas pessoas bem vestidas alimentavam-se e conversavam alegres. Leva alguns longos minutos para atravessar a rua movimentada, e quando consegue, chega à frente do estabelecimento. Sujo e cansado, fica admirando a vitrine do balcão, até que um sujeito sai e o coloca para fora aos gritos.
E passam-se as horas. Nada de trabalho. Não tem dinheiro e da farinha que trouxera, só há o saco. Numa sombra doada por uma enorme mangueira, no meio de uma praça, ele resolve descansar o corpo sofrido. Senta-se ali e fica admirando as pessoas que transitam ao redor de si. Passa a mão grossa de calos no rosto para tirar o suor, reza para si um Pai Nosso, agradecendo ter conseguido chegar. Beija a pequenina medalha de Padre Cícero que trás no peito, único presente que ganhara na vida e deixa o tempo passar.
E o tempo passa rapidamente, já se vão dois meses desde a sua chegada, e ele vai vivendo de mendigar, tentando não morrer, dormindo sob jornais sujos, seu único abrigo, sempre sonhando em vencer.
Altas horas na metrópole. Noite fria. O nordestino que na Caatinga era caçado pela escassez, agora, é caçado pelo preconceito, lhe ateiam fogo no corpo adormecido, corpo minguado, sofrido, nesse chão seu único leito, nessa pátria o seio, onde foi nascer.
Os meios de comunicação da metrópole não se cansam de divulgar o trágico desfecho, e todos dizem não conseguir compreender tanta maldade, e choca-se o país e sua medíocre sociedade.
Mas ninguém tem lágrimas para aquela morte, porque não passam nenhum rio de sentimentos nos corações vazios do povo da cidade.
Cabe então só a alma do retirante, tentar entender o porquê de tanta insensatez, do trágico destino, e dessa ausência de lágrimas, porque de tragédia ela entende, como entende de escassez.
E lá no sertão nordestino, aumenta o volume das águas do rio chamado saudade.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 12 - Março de 2008