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Anderson
Santos
Porto Alegre /
RS
Dádiva
amaldiçoada
I.
- Para um caçador de vampiros, toda hora é meia-noite
– pensou Patrícia enquanto esperava, em tocaia, o alvo
que perseguia há três semanas. Patrícia era uma
Szadkoski. Não recebera a missão da família por
sangue, mas por matrimônio quando desposada por Ryan anos antes.
Ryan, descuidado e impulsivo. Ryan que fizera dela esposa, mãe,
e viúva num período de quatro anos. Ryan que não
estava ali para defendê-la. Que nunca soube defender-se.
Há poucos meses um novo surto de vampiros tipo mosquito se
espalhava na cidade. Sugadores apenas. Nenhum poder relacionado aos
verdadeiros vampiros. Têm sede de sangue, decompõem-se
quando expostos ao sol, água benta ou alho, morrem através
de estacas, podem ser aprisionados com sal grosso. No fundo, não
passam de mosquitos. Basta o golpe ou o veneno certo.
A maioria dos novos mosquitos era de homossexuais que buscavam aventuras
durante a noite nos parques da cidade, principalmente no parque conhecido
como Redenção.
- Mas não encontram redenção aqui – pensou
Patrícia, alerta, segurando com a mão firme uma estaca,
e com a canhota o crucifixo em marfim que sempre a acompanhava.
Eram os anos oitenta, afinal. A AIDS era vista como o câncer
dos gays, justiça divina contra o pecado. Atacar homossexuais
era uma ótima maneira dos vampiros agirem. Qualquer mancha
que aparecesse na pele deles seria vista como sarcoma de Kaposi. A
baixa da imunidade como efeito do vírus HIV. O álibi
perfeito.
Mesmo assim alguns aventureiros, talvez excitados pelo perigo, circulavam
pela madrugada em busca de sexo, drogas, ou algum outro tipo de prazer.
Patrícia acompanhava o ir e vir de homens pelos espaços
entre a vegetação do parque há quase cinco horas,
e já estava prestes a desistir quando avistou o primeiro movimento
atípico nas redondezas.
Já se acostumara a ver homens beijando homens, amando-se, afinal,
estava em caçada no parque já há algum tempo.
O não-convencional na cena não estava na formação
de um casal onde não havia mulher, mas no fato de um dos homens
não deixar pegadas.
- Alvo à vista – foi o primeiro pensamento consciente
de Patrícia. O inconsciente tinha feito a mulher guardar a
estaca às costas, levar a mão ao bolso dianteiro da
calça, e coletar uma ampola contendo um líquido opaco.
O plano era simples. Patrícia, vestindo roupas masculinas e
um boné que ocultava as feições delicadas de
seu rosto andaria desleixadamente na direção do casal
numa diagonal que não indicava aproximação, mas
coincidência. A dupla, esperava, não se preocuparia com
o movimento. O ataque seria rápido e certeiro. Iniciaria o
processo de esvaziamento da mente, por não saber quais os poderes
psíquicos do vampiro, nem a classe do mesmo. Sabia apenas que
não era do tipo mosquito. Vampiros mosquitos não flutuavam.
Antes de esvaziar a mente, Patrícia pensou em Hector, seu filho
de pouco mais de quinze anos, sozinho em casa, em treinamento. –
Preciso ensiná-lo a técnica de esvaziamento, ou ele
será um alvo fácil na mão de vampiros telepatas
– pensou Patrícia, renovando as forças para o
ataque. – Faço isso pelo bem estar do meu filho, que
tem o sangue dos Szadkoski, e será um caçador melhor
que o pai. Meu filho, minha herança.
Ao concluir a oração, Patrícia estava preparada
para o ataque.
II.
As batalhas mais importantes do mundo foram vencidas em poucos segundos.
Batalhas longas são travadas entre perdedores e causam mais
dor do que vitória.
Patrícia não acreditava em guerras. Cada batalha era
definitiva. Compreendia que, em sua profissão, perder uma batalha
era o fim.
Precisava ser rápida.
Aproximou-se do casal exatamente como planejara. Nem o homem que estava
sendo vampirizado, nem o vampiro que se alimentava pareceram percebê-la.
Patrícia chegou a ter a sensação de uma mão
branca tentando acessar os arquivos de seu cérebro, sem êxito.
A sucessão de instantes seguintes foi como um borrão.
A percepção de Patrícia agia em câmera
lenta. Próxima do alvo, arremessou o frasco contra a cabeça
do vampiro que imediatamente começou a gritar. O grito sugeria
alguma ave pré-histórica. O cheiro no ar, esse era certo.
Alho.
A mistura de água benta, alho e sal grosso agiu imediatamente
sobre o couro cabeludo e a pele do vampiro. A criatura virou-se, caninos
ensangüentados tão a mostra quanto a caixa craniana estaria
em poucos segundos, mas pouco teve tempo para reagir.
Enquanto o vampiro girava o corpo, Patrícia colhera junto às
costas a estaca, e no momento em que estavam frente a frente, as últimas
coisas que o vampiro pode ver foram o olhar e o sorriso triunfantes
no rosto do algoz.
Três segundos após a aproximação da caçadora,
o corpo do vampiro já esmorecia com uma estaca firmemente cravada
no peito.
Mais um ponto para a família Szadkoski.
Patrícia, que não pretendia ter de explicar-se, aproveitou
os segundos de torpor induzido que ainda restavam sobre o rapaz vampirizado
para tocá-lo com o crucifixo.
- Não foi transformado. Outra alma salva pela Szadkoski Exterminadores
Ltda. Patrícia permitiu-se rir, direito que lhe foi roubado
um segundo depois.
III.
A mão branca tornou a penetrar suas memórias. Tomou
controle de seu corpo. Patrícia nada podia fazer, e lutava
mentalmente contra as ações que agora desempenhava.
Abaixou-se e colheu a estaca. O braço ergueu-se e, no interior
de si, Patrícia pôs-se a gritar e debater, sem sucesso.
Um arco foi descrito pelo braço da Patrícia que não
mais lhe pertencia, atingindo em cheio o peito inocente do jovem rapaz
entorpecido.
- Bravo Patrícia. É este o nome, não é?
Uma Szadkoski sem o sangue da linhagem. Interessante. – O corpo
de Patrícia virou na direção da voz, e o que
a mulher viu não foi tranqüilizante. Conhecia a lenda.
Agora via a criatura. Hinterholz, o General.
- Fico lisonjeado pelo reconhecimento – disse o vampiro, grasnando
risos que Patrícia imaginou que ouviria mesmo depois da morte
– mas isso não irá reduzir tua pena. Terei a mesma
clemência que dedicaste a meu jovem pupilo. Adeus Patrícia.
As presas de Hinterholz voaram em direção à jugular
da mulher. O último pensamento de Patrícia foi enviado
ao coração de Hector. – Cuide-se bem meu filho,
seja forte.
Hinterholz rasgou a garganta de Patrícia, absorvendo junto
ao sangue as lembranças daquela que atrapalhara seus planos.
Na manhã seguinte, junto aos corpos de um casal ainda não
identificado, a polícia encontrou um pequeno bilhete com os
seguintes dizeres.
Eu aguardarei tua vingança, Hector, filho de Patrícia,
herdeiro dos Szadkoski.
A assinatura do bilhete dizia apenas "o General".
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