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Cellyme
Mossoró
/ RN
Excessivos
corretivos do tio Sebastião...
A voz
saia ainda emocionada e embargada, apesar de tantos anos passados.
Aquele senhor de 76 anos de idade – Sr. Manoel, tão marcado
pelas experiências da vida, pelas durezas que passou durante
toda sua existência, embora estivesse num papo descontraído,
falando da forma como hoje são educadas as crianças
e jovens, que ninguém pode aplicar sequer uma palmada corretiva,
voltavam ás lembranças a sua tenra idade – quando
tinha três anos. Garoto que não tinha um bom crescimento,
era muito raquítico, passou a viver em companhia de seus avós
maternos, e o responsável pelos ensinamentos da vida, como
trabalhar, como se tornar um homem... um tio – o Sr. Sebastião,
homem de estatura grandiosa, em tamanho e em brutalidade. Suas ações
eram movidas à chibatadas; se dava uma ordem e esta não
fosse cumprida de imediato, não havia perdão, descia
a chibata. E assim, quando o Manoel já estava um pouquinho
crescido, por volta de sete anos, já começava sua vida
torturante. Estudar nunca. Mal aprendeu a grafar seu nome e soletrar
poucas palavras. E seu tio o conduzia para onde ia, era como se fosse
seu pai. E Manoel o temia mortalmente. Um grito já fazia com
que ele ficasse gelado. Vivia sob uma imensa tensão. Foi posto
a trabalhar, ajudando na plantação da roça, apanhando
algodão, cuidando dos animais, entre outras atividades da roça.
Se colocasse sementes demais nas covas do milho ou feijão,
quando estes nascessem à denúncia se fazia imediatamente
pela quantidade exagerada que brotava, então uma grande surra
de chibata era aplicada. Se um animal desviasse seu pasto e se demorasse
a ser encontrado, outra surra. E assim passava-se o dia. Havia dias
que o destino era tão cruel com o Manoel, que o tio Sebastião
dava-lhe umas três surras. Um dia, quando Manoel estava na labuta,
rapazinho por volta de dezesseis anos, capinando a terra, com equipamento
de tração animal, com medo de ser pisado pelo boi que
puxava a campineira, soltou às rédeas e o animal destruiu
alguns pés de algodão, então o tio observando
tal fato, totalmente transtornado, arrastou sua arma mortífera,
e desferiu várias chicotadas nas costas no pobre do Manoel,
fazendo jorrar o sangue. Ele não tinha a menor piedade. E teve
que regressar para casa, onde sua avó teve que lavar com “água
de sal” para melhor cicatrizar. Naquela época os remédios
eram assim... não havia acesso a curativos que hoje todos dispõem.
E a cada atrocidade fazia com que o jovem se tornasse também
bravo e traumatizado. E passaram-se alguns anos, e sua tia casa-se
com um camarada bondoso – o João. Que começou
a observar o quanto o Manoel era trabalhador, e não entendia
porque ainda aceitava aquela situação de vida, começou
a incentivá-lo à defesa. O João convidou para
que eles todos (Manoel, Sebastião e José) fossem trabalhar
em suas terras em outra localidade, e a proposta foi aceita. Nessa
nova etapa de vida, o trabalho era estafante, pois seriam lenhadores,
que forneceriam para a estrada de ferro, combustível (lenha)
para a “Maria Fumaça”. E o João sempre dava
uma força para Manoel, alertando-o que se não se impusesse
apanharia até ficar de barbas brancas. E ele foi incutindo
em sua mente suas defesas. Numa madrugada fria, depois de uma longa
noite de chuvas, levantou-se Manoel e José para irem pegar
seus animais – dois jegues para cada um, que fariam o transporte
da lenha do ponto do corte até a estrada de ferro. Buscaram
por muito tempo até encontrar os animais, estes escondidos
dos insetos que surgiam no inverno. Quando os encontrou o sol já
havia surgido. Estava tarde para o horário combinado com o
tio. Mesmo assim, colocaram a malfadada carga nos jegues e seguiram.
No meio do caminho, por ironia do destino, a carga de um dos jegues
do Manoel escorregou e desmoronou. Este mandou que José seguisse
sem ele, iria arrumar tudo de novo. E José foi embora, chegando
ao ponto onde o tio os esperava, já ouvia seus violentos gritos,
querendo saber por que tanta demora e onde estava Manoel com seu carrego.
José informou o que ocorrera. Mas este ficou muito nervoso,
não querendo saber detalhes e já prometendo o que faria
quando este chegasse. João que estava do lado ficou a observar
e esperar a chegada do amigo.
Depois de algum tempo chegou Manoel. E ao longe ouvia os gritos do
tio Sebastião. Nesse dia, estava disposto a defender-se, estava
muito zangado com tudo que tinha acontecido, era vítima e nada
mais, o sangue fervia por suas veias, não apanharia, naquele
dia não! E olhou para seu amigo João, sentiu uma fortaleza
de seu lado. E criou coragem e respondeu a altura seu tio, este não
gostando de seu tom de voz, já foi puxando seu cinto, três
dedos de largura, feito de couro cru, com uma grande fivela na ponta,
a dor que aquilo provocava já conhecida, mas mesmo assim, buscou
uma coragem nas profundezas de sua alma, olhou rapidamente para João,
buscando o apoio amigável e gritou: não venhas! Não
me batas mais, se der mais um passo... deu um pausa na voz - e puxou
de seu bolso uma pequena faca, que empunhou na direção
de seu tio dizendo: eu não me responsabilizo pelo que posso
fazer. Tamanha foi à surpresa do tio, ao ver Manoel com aquela
reação que o paralisou por alguns segundos, e João
que estava atento a tudo, tratou de segurar o Sr. Sebastião,
não deixando que ele avançasse. E falou sério
para seu cunhado Sebastião, mostrando que não era admissível
tratar Manoel daquela forma, já estava crescido e não
daria certo, aconteceria qualquer dia uma tragédia. E a partir
desse dia, jamais Sebastião bateu em Manoel. Seguiram suas
vidas. Manoel com lembranças doídas, se fez um homem
sério, de caráter admirável, bravo quando necessário,
mas também doce e amoroso com seus filhos, que até hoje
lhe têm respeito.
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