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Glória Brandão
Itabuna / BA

Amantes secretos, nunca mais!


Carregando uma sacola azul, com detalhes em verde e alças esfarrapadas, Jaciara saltou do ônibus na rodoviária da grande cidade. Olhou ao redor e nem um rosto conhecido; gente de todo jeito indo e vindo de todo lado para todos os lados. Pareciam formigas endoidecidas.
Jaciara apertou a velha bolsa surrada contra o peito, parecia ter medo dos estranhos. Meio zonza, com faces pálidas, cabelos despenteados pelo vento durante a viagem, roupinha sem graça e própria de gente humilde que mora na zona rural. Ela tem traços até bonitos, cabelos castanhos claros e queimados pelo sol, pernas bem torneadas e beira seus vinte e seis anos. Seus olhos não refletem tristeza, mas também não há felicidade. Alegria de quem chega em uma cidade grande para visitar os parentes, encontrar um grande amor, passear... Tudo isso estava muito distante dos olhos de Jaciara.
Encaminhou-se para fila de táxi. Parecia uma moça desconfiada e envergonhada. Tímida, muito tímida. Estirou um pedaço de papel para o motorista, era o endereço do seu novo emprego.
Jaciara fora muito bem recebida, pois já estava sendo esperada. Uma casa bonita com varanda, ante-sala, sala... Sala de estar, sala de TV, salão de jogos, banheiros nos quatro quartos e no dela também. A dona da casa era uma senhora muito simpática, Dona Odete, o esposo Senhor Álvaro, homem sério, mas educado, os filhos, Bruna e Breno, crianças normais. Morava também João Pedro, irmão mais novo do dono da casa.
O trabalho de Jaciara era todo o serviço da casa. Com oito dias já se sentia confortável. Muito limpa, alegre, organizada e esforçada para aprender o que não conhecia. Tudo estava indo muito bem. Seu salário era satisfatório e já fazia o trabalho da casa cantarolando. Adorava cantar músicas de Fagner, de Roberta Miranda. Começou a usar seus humildes e minúsculos shortes com pequenas blusas. Suas pernas e metade dos seios quase à amostra.
Não demorou, a ser acompanhada pelos olhos gulosos de João Pedro. Ela sabia que ele lhe desejava, mas se sentia tão somente “a empregada". O Don Juan era noivo de uma linda e bem sucedida Jornalista, Carol, moça muito simpática e bem querida entre todos da casa. Até Jaciara, já gostava da futura esposa de João Pedro.
Um certo final de semana com feriado prolongado, toda a família viajou para a casa de praia, exceto, João Pedro que ficou esperando sua noiva que iria chegar da capital. Jaciara iria ficar para cuidar dos animais e das plantas. Todos viajaram sábado bem cedo. O dia transcorria normal e no final da tarde, Carol telefonara ao seu noivo dizendo-lhe que só retornaria na próxima semana. A principio, ele ficou triste, mas não demorou a se alegrar, ao olhar a figura de Jaciara regando as plantas. Desceu até o jardim, a passos lentos e parou bem em frente da moça, ela ficara perturbada e sem parar de regar uma jovem roseira, ficou a fitá-lo também. Ambos se olharam por algum tempo, até que a mão de João Pedro tocou a sua e estranhamente, ela não a retirou. Como imã, seus corpos se aproximaram e ali, ainda regando o pé de rosa, melhor encharcando a roseira, se beijaram. Inicialmente, ela tímida, depois se mostrou voluptuosa, gulosa e muito desenvolta na arte do beijo de língua. A noite chegou e ambos viveram sua primeira noite de amor naquela casa silenciosa. Apesar de ser do interior, da zona rural, Jaciara revelou-se uma amante excepcional e aquele final de semana foi o primeiro de muitos outros.
Desde esse dia, o noivado de João Pedro esfriou com a simpática Carol. Antes de um mês, deu-se o rompimento em definitivo. Todos da família ficaram intrigados com esse término tão sem motivo. João Pedro e Jaciara ficaram por muitos meses amando-se furtivamente. No meio da noite, ele ia ao quarto dela ou ela ao dele. Até que certa noite, dona Odete, sentindo forte dor de cabeça, foi até o quarto de Jaciara saber dos seus remédios e teve uma grande surpresa, na cama a moça não estava. No mesmo instante, dirigiu-se ao quarto de João Pedro e a porta estava trancada. Encostou os ouvidos rentes a porta e pode ouvir os gemidos de Jaciara. Nada disse, a sua dor de cabeça até passou.
O dia amanheceu, tudo normal, o café pronto e servido na hora certa. Na cozinha, Jaciara enquanto lavava a louça, cantarolava. A sua cantiga invadia a casa e voava pelo jardim. O Senhor Álvaro levou as crianças para a escola e dona Odete teve uma conversa séria com os amantes secretos. Tudo fora esclarecido e ao invés de Jaciara ser despedida, tornara-se a namorada oficial de João Pedro. Estavam felizes. Amantes secretos, nunca mais! Envolvido pelos carinhos de Jaciara, João Pedro tomou a decisão e, em pouco tempo casaram-se.
Depois de um ano, com os estudos concluídos e bem empregado, João Pedro e Jaciara mudaram-se para seu próprio lar. Uma nova família estava formada. Apesar de iniciarem o romance de uma forma apressada e como dizem os mais antigos, errada, estavam felizes. Mas, voltando à jovem roseira, ela morreu, de tanto ser regada, mas outras roseiras foram plantadas no novo lar de Jaciara e João Pedro.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 12 - Março de 2008