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Luciano Riélo Ferreira
Rio de Janeiro / RJ

O presente


Al Massum era um califa muito mau e irascível, porém muito inteligente e de palavra, que no século VIII governava a cidade de Bagdá. Sua filha Kila, ao contrário do pai, era uma pessoa boníssima e como se isso não bastasse era lindíssima e também muito inteligente. Como Kila já tinha atingido a idade de 21 anos, o califa decidiu que já era hora dela se casar e decretou que quem lhe trouxesse um presente que lhe agradasse plenamente teria em troca a mão de sua filha.
O desafio foi feito a todos: ricos ou pobres, príncipes ou plebeus, inteligentes ou néscios, fortes ou fracos, lindos ou feios enfim o que realmente importava era o presente e não quem o daria.
Passaram-se 30 dias e apenas três pretendentes apareceram para disputar a mão de Kila. (Não que não houvesse outros interessados em desposar a bela filha do califa, o problema era ter coragem para fazê-lo, já que todos temiam a ira e a maldade do futuro sogro) Após as saudações habituais foram feitas as devidas apresentações. O primeiro pretendente, príncipe Al Hajid foi anunciado e dirigindo-se ao califa disse: - Nobre califa, ofereço-vos em troca de sua filha todo o tesouro que esta enorme arca é capaz de comportar. E mandou seus dois escravos abrirem a enorme arca deixando à mostra para os convidados e para o califa as diversas riquezas e belezas que ela continha: diamantes, esmeraldas, safiras, rubis, jóias enfim tudo em tamanho imenso e em grande quantidade. O califa ao invés de sorrir de felicidade com toda aquela riqueza fez uma caratonha e muito mal-humorado retrucou: - O que me ofereces já o tenho em quantidade, volta para seu reinozinho e leva essa arca contigo, pois minha filha vale mais do que isso! E Al Hajid retirou-se muito envergonhado e humilhado.
O segundo pretendente foi então anunciado: era outro príncipe de nome Al Kalil, mais belo que o primeiro, que era gordo e baixo, porém já de meia-idade. A princesa acompanhava a tudo atentamente, pois a escolha de seu pai selaria seu destino.
Al Kalil dirigiu-se ao califa e falou: - Majestade, aqui está um pássaro raríssimo e belíssimo que irá alegrar o despertar de Vossa Majestade com seu lindo canto durante muitos e muitos anos.
Furioso o califa se manifestou: És um tolo, então não sabe que este pássaro me alegrará por não mais que uma década e após esta morrerá me deixando apenas a triste recordação de seu canto? Seu presente na verdade me trará desgosto e não alegria, leve, portanto, este pássaro com você, pois o que me trazes é uma alegria efêmera que não vale a mão de minha filha! E humilhado e triste foi-se embora o segundo pretendente. Só restava agora o terceiro pretendente, que não era um príncipe, mas um homem misterioso vindo do estrangeiro que muitos diziam ser um sábio. Era o mais belo e formoso dos três pretendentes e sua beleza não passara despercebida aos olhos da princesa que orava para Alá com fervor para que ele fosse o escolhido.
Finalmente Al Hassam foi anunciado e dirigindo-se ao califa disse: - Califa, o que vos trago é um jogo muito curioso e instrutivo chamado xadrez, que o alegrará até o último dia de sua vida e em todos os momentos em que Vossa Majestade dele fizer uso. Al Massum ficou curioso com o jogo e pediu que Al Hassam falasse mais sobre o mesmo. Al Hassam então continuou: - Neste jogo não há sorte ou interferência do destino, devendo ambos os jogadores usarem o raciocínio de suas mentes para vencer a batalha. Observe califa que há casas claras e escuras alternadamente no tabuleiro que representam respectivamente os dias e as noites. Note que há dois exércitos um negro e outro branco que representam respectivamente a eterna luta entre as trevas (o mal) e a luz (o bem). Observe também que as brancas começam o jogo, porque a luz precede as trevas. Veja que cada exército possui oito peões (a infantaria) que avançam intrépidos à frente das demais peças em direção ao território inimigo e saiba que o rei é a peça mais importante do jogo, pois se levar xeque-mate o jogo acaba imediatamente com a vitória do exército que atingiu esse objetivo. Olhe as outras peças: os bispos representam a religião que é tão importante para um reino como para um indivíduo; a rainha é a peça com maior mobilidade no tabuleiro sendo por isso muito valiosa e ajuda o rei na difícil tarefa de vencer o exército rival, por fim os cavalos representam a cavalaria e as torres as armas pesadas. (*)
Fascinado com a explicação de Al Hassam, Al Massum pediu-lhe que lhe ensinasse a jogar, o que foi feito. O público nem piscava diante das explicações de Al Hassam acerca das regras do jogo.
Depois de algum tempo o califa jogava animadas partidas com sua corte, vencendo todas, pois ninguém tinha coragem de vencê-lo por medo de ter que enfrentar sua ira.
Finalmente após tanto jogar Al Massum determinou que Al Hassam era o vencedor e a ele cabia por direito a mão de sua filha.
Kila chorou de alegria ao ouvir as palavras de seu pai que apesar de mau era conhecido como um homem de palavra e que não voltava atrás quando a dava.
Al Hassam pediu a palavra ao futuro sogro e disse para quem pudesse ouvir: - Nobre califa, só vos digo mais uma última coisa sobre o jogo que é o seguinte: saiba que quando o jogo acaba o peão e o rei vão para mesma caixa e assim também se dá no tabuleiro da vida, onde ninguém é melhor ou pior do que ninguém, mas sim todos filhos de Alá. Todos aplaudiram Al Hassam de pé, inclusive o califa que entendendo a nobreza e o significado das palavras proferidas por Al Hassam, a partir daquele momento transformou-se num rei mais justo e mais sábio para seu povo.


(*) Por uma questão de praticidade, os nomes das peças de xadrez que aparecem no texto são seus nomes definitivos e não os nomes que elas tinham na época citada no texto.



 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 12 - Março de 2008