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Vicentônio
Regis do Nascimento Silva
Maracaí
/ SP
Coca-Cola
Fecha
a porta. No sofá, uma carícia nela. Deseja passar-lhe
a língua, sugá-la, beijá-la. Olha-a, pensando
nos desafios enfrentados para levá-la para casa: escapara da
namorada, enganara a mãe, convencera o pai.
Se alguém descobre, escândalo geral. Notícia correndo
de boca em boca, servindo de exemplo de pecado nas pregações
e liturgias das igrejas, fotografias grandes nos jornais locais, informações
nas rádios veiculadas três vezes ao dia, interrompendo
a programação normal para dar notícias atualizadas.
Quem sabe se a televisão não apareceria?
Encarar os vizinhos, os amigos, os conhecidos, os colegas de trabalho
e os transeuntes no dia seguinte. Embora pouco apropriada, uma alternativa
a mudança de cidade e de hábitos.
- Ou vai ou racha, disse, segurando-a com mais intensidade.
- Abra a porta! Alguém gritou de fora.
- Quem é? Perguntou assustado e apoplético.
- Abra ou arrombo.
A namorada, batendo nervosamente o pé direito no chão.
Um rapaz, calças no meio do joelho e cuecas à mostra,
cortou a fila do cinema. Ela olhava silenciosa, batendo nervosamente
o pé direito. Depois de percebê-la encarando-o: - Se
está achando ruim, vem me tirar daqui.
Não esperou dois tempos. Voou em cima dele, saiu rolando no
chão, aplicando-lhe golpes certeiros no queixo. Envergonhado,
orgulhava-se dos aplausos, assobios e gritos de apoio.
Ela estava à porta. Levaria uma surra como o garoto do cinema.
Correu para o banheiro, mas antes de se trancarem ouviu a porta da
sala estourar.
Quase enfartou quando a escutou mandar abrir a porta. O instinto natural
dizia-lhe para não perder tempo, mesmo na iminência do
perigo. Pegá-la, encostá-la na boca com força
e rapidez. Introduzir a língua nela, sugá-la, chupá-la.
Molhadinha, suada, escorrendo, delicada, atraente.
- Cachorro! Desgraçado! Você me faz promessas e eu te
pego trancado em casa com ela. - Socos na porta: - Quando entrar,
mato você e passo com o carro em cima dela.
As vizinhas vieram em auxílio dos encurralados. Tentavam conter
a namorada quando, aproveitando a oportunidade, os dois saíram
do banheiro, se meteram no quarto. A namorada pulara o sofá,
passara por uma cadeira, esbarrara numa vizinha, empurrara outra e
dera de cara na porta.
Encontrou uma faca afiada, usada pelo sogro em churrascos, pescarias
e alguns trabalhos rurais. Chutou a porta do quarto uma, duas, três
vezes. Escancarou-a na quarta. As mulheres gritavam. Uma delas ligou
disfarçadamente para a polícia. Pediu pressa.
Encolhido no canto, o namorado se apavorou.
- Onde está ela? Com você me resolvo depois, mas vou
acabar com ela agora. Alisava a lâmina com a mão esquerda.
Olhou embaixo da cama, atrás da porta, embaixo do sofá
(razoavelmente gordo, o namorado comprara uma poltrona reforçada
sob a qual uma pessoa poderia se esconder facilmente), no banheiro,
na banheira. As janelas tinham grades reforçadas contra ladrões.
Dirigiu-se ao guarda-roupa.
Uma vizinha ensaiou intervenção, mas as outras a contiveram.
Imaginava-se em entrevistas aos principais jornais, revistas e redes
de televisão relatando, chorosamente, o extermínio.
Pensava no discurso que faria, na roupa que vestiria, nos gestos de
desespero, na biografia exemplar do vizinho.
A namorada revirou gavetas, espalhou meias, cuecas, caixinhas de remédios.
Abriu a primeira porta. Retirou camisetas brancas, bermudas azuis,
verdes e pretas, mais meias, cinco novos pares de sapato.
Ternos, camisas, calças e cintos na segunda.
Parou na terceira porta. Olhou radiante para o namorado, alisando
novamente a lâmina. Mandou pelos ares roupa por roupa: bermudas
velhas, camisetas de campanha política, meias desemparelhadas,
camisetas de time de futebol, chuteiras velhas, bandeiras rasgadas.
Rápidos, certeiros, raivosos golpes contra a gostosa, a atraente,
a deliciosa que se atrevera a flanar com o namorado. Enquanto a golpeava,
o líquido saía sob pressão, inundava o quarto,
manchava o guarda-roupa e a parede branca. Não as facadas,
mas o alarido das vizinhas transtornava.
Vitoriosa, aproximou-se do namorado:
- Se te encontrar novamente com uma Coca-Cola...
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