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André Dias
Rio de Janeiro / RJ

Vida fácil

Eu não estou nem um pouco interessada, mas, como ainda temos tempo, ele fala mais ou menos assim:
- É claro que ninguém acha fácil a vida que leva, mas uns tem mais motivos para achar isso do que outros. Tudo uma questão de méritos e capacidade de ignorar derrotas, atribulações e instintos, de administrar desejos e realidade, traçar planos alcançáveis, e ainda assim, instigantes. Enfim, vida fácil não existe desse lado da vida. Mesmo assim, ninguém quer provar do gosto da outra, do outro lado, do pecado ao contrário, obscuro entre o espelho e a mão erguida. A beleza jaz na vida em tempo futuro, aquela que conjugamos tão longínqua quanto utopicamente. Enquanto isso, o presente se decide em um segundo, entre a freada atrasada e a angústia que gangrena a alma quando o fracasso vira regra, e extirpa de tudo o sentido.
Isso tudo depois da primeira. O que uma transa e um scotch não fazem. Fiz pouco caso, porque não entendi lhufas, nem gosto de muita intimidade com cliente. Perguntei se ele sempre fazia isso enquanto esperava ficar excitado novamente. Ele sorriu, mas falava sério. Olhou para mim com uma cara de "meu Deus do céu, como perdi tempo falando tanto pra uma idiota dessas." Nem ligo. Levanto dizendo, você precisa é de outro scotch. Estou com a noite garantida, ele que broche. Ele acha engraçado eu falando "escotche", mas não quer consertar minha pronúcia. Sei que ele sorriu por causa disso, porque logo depois falou "scotch" todo empolado, parecia até um gringo, e fez questão de salientar essa parte, tentando me impressionar, coitado.
Coitado mesmo, porque depois da terceira dose já não responde por si. Começo a ver televisão. A mulher do filme, assim como eu, vê televisão. Um homem dorme ao lado dela. Os scotches começam a fazer efeito em mim também, e a televisão parece um espelho onde me vejo menor, mais bonita e mais rica. Ela se levanta. Faço o mesmo. Na televisão que ela vê uma outra mulher faz o mesmo. Ela conta o dinheiro na bolsa, assim como a mulher da televisão que ela vê que imita uma quarta mulher. Uma mais bonita que a outra. Mais rica que a outra. Menor que a outra.
Elas se vestem, e faço o mesmo. Uma quinta mulher tira da bolsa uma arma, e todas as outras a seguem, incluindo eu. Apontamos para os homens que dormem em nossas camas, ainda sujos do nosso sexo. Bêbados de scotch barato que bebem como se fosse o mais caro. Orgulhosos de suas próprias pronúncias de merda. E nós, mais bêbadas ainda. A sexta mulher finalmente atirou. Sentimos mais prazer do que quando os imbecis gozaram, ainda dentro de nós.
A sétima mulher sai, num rompante. Assim como todas as outras, menos eu. A porta não abre. Onde o imbecil deixou a chave? Ele ainda agoniza no lençol todo sujo do nosso sexo e de sangue, pegajoso e escuro, e eu tive que sujar minhas mãos naquele lamaçal, e todas as outras mulheres já estavam em seus carros importados, e eu procurando a chave no meio das suas calças suadas e puídas, e o puto ainda vivia, perguntei a ele onde estava a porra da chave – “diz logo antes de morrer, senão morre mais rápido, ainda tenho bala pra queimar, não me olha com essa cara de que estou pedindo demais, não estou, fala logo! Quer elogio? Você transa muito bem! Sua pronúncia de inglês é ótima, adorei a bebida, você fala muito bem, é culto, e me entende perfeitamente! Pensei em não cobrar, mas sabe como é estou precisando pagar o colégio da minha filha, o plano de saúde do meu pai e as dívidas do meu irmão, sou uma só, você entende, não entende? Responde!
As outras oito mulheres já fugiram. Sobem os créditos do filme. Estou chorando, implorando pela chave. Não sei mais onde procurar. Preciso sair daqui. Tomo mais um scotch. E outro. Até cair. Caio ao lado da cama, do lado em que ele dormia. Acordo com o sangue dele, pingando no meu nariz. Só então me dou conta do que fiz. Não lembro o porquê de ter feito, nem quando, mas lembro que fiz; lembro do meu sangue frio correndo enquanto puxei o gatilho. Passo o dia procurando a chave, e finalmente a encontro, em cima da tevê.
Pego o meu lenço e limpo as impressões digitais da arma, e a coloco em suas mãos, já retesadas. Junto todas as minhas coisas. Pego todo o dinheiro da casa, uns vinte dias de trabalho. Fico invisível. Admiro a vizinhança, enquanto procuro motivos para achar a vida fácil.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 12 - Março de 2008