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Ângela Maria Rodrigues O. P. Gurgel
Mossoró / RN

O suicídio

Naquela noite ela estava tranqüila, nada sentia; nem medo, nem dor, nem saudade, apenas uma vazio. Um enorme vazio que lhe preenchia a alma, o corpo, vida!
Sentou-se, escreveu alguns recados, para os filhos e sobrinhos. Olhou em volta, despediu-se de seu quarto, de sua vida. Olhou algumas fotos, não se reconheceu em nenhuma delas, abriu o guarda-roupa, uma por uma olhou suas roupas. Fechou. Tentou lembrar se não estava esquecendo alguma coisa.
Olhou a rede armada e lembrou das muitas vezes que estivera ali deitada, acompanhada ou sozinha, esperando por ele. Foram tantas as noites de solidão!!! Os dias de angústia e espera... muito de seus últimos dias foram vividos ali. Saiu. Entrou no banheiro, olhou-se no espelho. Lavou o rosto. Seus olhos nada refletiam. Saiu. Não gostava do que via.
Foi até a sala e, um a um, andou todos os cômodos da casa. Em cada lugar uma lembrança, uma dor. Foi para o jardim. Não havia flores. Sentiu um vento frio percorrendo seu corpo. Entrou. Chegara a hora. Não podia mais adiar. Fechou os olhos. Chorou. Mas não sentiu remorso. Sabia que não podia ser diferente.
Olhou o relógio e mentalmente registrou dia e hora. Foi a cozinha. Pegou álcool e fósforos. Pronto, nada mais podia ser feito. Sentou-se e sentiu o cansaço de toda uma vida em seus ombros. Olhou em volta. Não havia ninguém.
Foi para o canto do muro, jogou o álcool, acendeu o fósforo. Em poucos minutos o fogo tomou conta de tudo. As labaredas consumiam tudo com rapidez. Ouviu passos. Continuou imóvel, fascinada por aquela cena, olhos vidrados nas chamas, corpo aquecido pelo calor da destruição. Sentiu suas mãos em seus ombros. Continuou parada. Precisava ir até o fim. Exterminar esse viver! Ele a abraçou e ficou ali, olhando aquele fogo ardente e tentando imaginar o que se passava em seu coração.
Ela chorava em silêncio. Vendo queimar grande parte do registro de sua dor sentia-se como um túmulo sendo violado. Estava tentando arrancar de seu corpo aquele ser morto em que se transformara; mas para sua decepção não sentiu-se renascendo. O fogo já começava ceder lugar às cinzas, mas a dor continuava latejando em seu ser, ainda estava morta, não renascera. Sentiu que lágrimas quentes lavavam seu rosto. Ele continuava ali, mãos em seus ombros. Abraçando-a. Ela não sabia o que fazer. Jogava mais álcool? Saia daquele lugar? Agora que tudo se consumara não sabia o que fazer. Por que acreditara que aquele fogo apagaria sua dor? Por que pensara que destruindo os registros destruiria também a dor? Chorou compulsivamente. Ele tentou consolá-la. Ela pediu para ficar sozinha.
Estava desolada. O que fazer agora com tanta dor? Caminhou pelo jardim. Secou as lágrimas e pela primeira vez naquela noite percebeu que a lua brilhava no alto do céu. Deitou-se na grama e deixou-se banhar pelo seu brilho prateado. Seu corpo era jogado pelos soluços. Pouco a pouco sentiu que os soluços paravam. Enxugou o rosto. E ficou ali deitada. Adormeceu. Acordou com os primeiros raios do sol iluminando seu rosto. Levantou-se. Foi para seu quarto. Encontrou-o sentado na cama, com olheiras, ar de quem passara a noite em claro.
Quando ela entrou em seu quarto, aquele que testemunhara suas noites de solidão e amargura, ele estendeu os abraços convidando-a a sentar em seu colo. Aquele gesto tão familiar que ela agora se recusava a aceitar. Ainda vivia dentro dela a dor da traição. Não, o fogo não matara sua desilusão, sua tristeza, sua decepção. Passou direto. Entrou no banheiro. Ligou o chuveiro. Deixou que a água corresse em seu corpo. Ficou ali, vendo a água misturar-se as suas lágrimas. Desesperada descobriu que não matara seu sofrimento. Ela que morrera. Seu coração continuava batendo, seu cérebro estava vivo, mas ela estava morta.
Ele entrou debaixo do chuveiro. Abraçou-a. Ela afastou-se. Não queria o abraço de seu assassino. Saiu do banheiro. Enrolou-se numa toalha. Deitou-se e com olhos frios e sem vida ficou fitando o teto. Ele aproximou-se. Ela ficou inerte. Ele voltou a abraçá-la. Beijou-a. Ela tentava resistir. Ele cobriu-a de beijos e carinho. Disse que a amava. Que sua vida só tinha sentido ao seu lado. Ela continuou ali quieta. Ouvindo apenas. e ele cometeu seu segundo crime. Fez amor com uma morta. Seu corpo respondia a cada toque, ele podia estava vivo, mas algo mudara, uma parte dela não participava daquele momento. Seu corpo respondeu com ondas de prazer. Sua mente gritava de dor e vergonha por deixar-se possuir por alguém que destruíra seus sonhos, pisara em seu amor, traíra sua confiança. Sofreu por não resistir àquele que sabia ser ao mesmo tempo o grande amor de sua vida e o responsável pelo inferno em que se encontrava. E sua dor a fez despertar.
Agarrou-se a ele como há muito não fazia e entregou-se de forma violenta e sedenta. Era como se o estivesse punindo por toda dor que lhe causara. Cansados adormeceram. Quando ela acordou estava sozinha. Ele saíra. Voltou mais tarde com flores. flores para seu velório! Beijou-a. Ela levantou-se. Que faria agora? Não sabia. Morrera em vida e não tinha certeza se saberia viver/morrer assim.

 
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Publicado na Antologia de Contos Fantásticos - Volume 12 - Março de 2008