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Hilda Curcio
Antologia on line

Brasília / DF

 

Siglas

VPMA (Você Precisa Me Amar)

Venho de Leopoldina, MG, cortada pela BR116, a Rio-Bahia, meu sangue é A+, com DNA fraco, foi bem difícil engravidar, e só gerei um filho — mais um pra estatística do IBGE, internada no HGOB, Hospital Geral e Ortopédico de Brasília —, embora duas vezes casada. RG e CPF sempre atualizado.
Se eu explodir de felicidade, junto os sapatos e forma-se uma sigla de mim — a minha própria ONG — organização não governamental para fins de repúdio imortal pelas siglas.
E não é só isso, cabelo ex-preto, ex-pele-alva, pernas varicentas, lombar e cervical à base de RPG (em eterna reeducação de postura global) e RDM (mais reeducação dinâmica muscular) e ainda tração... tração e tração (que não é nenhum traço grandioso), mas uma forma de fisioterapia pra ATM — articulação temporomandibular, pra você ver. “Eu te odeio um ódio imortal.”
E continuo o despejar de desejos escarrados, cuspidos em-pós tanta fisio-terapia. Era verdade, desejava-lhe cinquenta minutos de RPG diários, mais tração, luz IV, laser, escondendo totalmente o funcionamento do ar condicionado, e muito choque e neuroestimulação-elétrica-transcutânea, vulgo tens e tens e mais tens... em qualquer parte do seu corpo, e que o fio desate da placa de borracha e lhe transmita o maior de todos os choques, não precisa matá-la, basta o choque... e que lhe tremam de dor as carnes. Por que todos os médicos e dentistas contratam secretárias tão...?
Saio de nova sessão, penso nunca mais voltar, alegria duvidosa quando era atendida pela Rosa ou pela Marcela, supervisionadas pelo Dr. Carlos Eduardo; por vezes improvisava um obrigada, muito obrigada, raras vezes um tudo de bom insincero, planejado, quem sabe a convencer-me de que algo em meu dia haveria realmente de bom ou bem... Elas se insensibilizam por tudo — nossas dores, as angústias, os medos, os problemas, os horários, afinal, secretárias, “todo mundo trabalha, não é só você, não”. E continuo, resoluta, um bife duro, com arroz empapado, feijão aguado e cheio de pé de porco, porque você não merece feijoada de verdade; ainda, pra acompanhar o banquete, suco de limão sem açúcar, fatias de limão rosa pra substituir a laranja, que você também não merece; em vez de couve, chicória ou almeirão, uma viagem pra Caldas Novas (no inverno é intolerável seu mau cheiro, ninguém sai das piscinas pra ir ao banheiro, senão por necessidade pastosa, no verão, ninguém tolera a água morna, mas eu lhe indico Caldas Novas assim mesmo), por desaforo ainda lhe desejo uma sessão de acupuntura elétrica, aquela ligada ao tens, pequena sessão de laser na sola do pé, pra tirar esporão, e que seu homem só tenha tesão de mijo por você, aquele, bem matinal, mesmo assim, não consiga orgasmo.
Hoje, saí de onde moro, a SQSW304, percorri a L2 Sul, passei pela W3 Norte, fiz tudo de que necessitava e voltei pra casa em seguida.
Como não odiar siglas? HPV, hepatite A, B, C, e mais o abecedário todo em ATM, RPG.
Por ora, sou como a “carmenère”, a filha perdida de Leopoldina.
Uma sigla que eu amo? — RC — meu amor platônico, suas músicas são minha única e maior chance de orgasmos múltiplos.
Passo por um lixão, fim da SQS 416 Sul. Termino seguindo os três erres que o meio ambiente espera — reduzir, reaproveitar e reciclar, mas onde?... o quê?
Tanta sigla, RPG, ATM, e muita abstinência de amor, tudo dói, tudo rui, tudo flui diferente do que sói ocorrer.
Na escola reminiscente, as professoras de todas as matérias nos enchem com siglas para decorar, mas os significados delas não têm nenhuma poesia. Pra que servem as siglas sem poesia?, siglas sem amor não têm graça nenhuma. Elas escondem em cada letra-sinal um significado, mas... Tudo apreendido afinal— esta é a fórmula que tenho para FCV (“falar” com você) e sinto muita falta disso, ADMV (amor da minha vida), mas fique à vontade, é você quem decide. Quando quiser me usar, fala, estou bem aqui.
Só para abstrair — P.S. VTQMA, isto é, Você Tem Que Me Amar!!!
As siglas cívicas não significam nada pra mim, só para os políticos que têm que falar nas entrelinhas, evasivamente... ao MST. De km eu não entendo nada, só sei que é longe, muito longe.
E sonhei, sonhei.
Desejo um aparelho para amenizar as dores nos ombros (porque sempre inventava de carregar o mundo nas costas), almejando uma espaldeira elástica simples ou um imobilizador em oito para a clavícula — nem sei mais onde a dor, que, basta uma ilusão de um oi tímido do homem certo, para espalhar felicidades efêmeras na tanta dor.
PEPEE — Programa de Educação Postural e Ergonomia Escolar. Por que não tive isso? Quando acordei, ainda hoje, vi minha vida repleta de letras e siglas.
Sempre fugimos de algo, atualmente, a fuga deve ser da gripe A-H1N1. Dormi muito. Recebi ligação do SAT — seguro de acidente de trabalho. Hoje, funcionária do TRF, lotada na COTAQ, matrícula TR353/03, considero-me boa funcionária pública.
Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença... E o SUS e o INSS... Passo a ouvir mais uma música na centrífuga que me extrai um suco vitamínico A,B,C,D,E...etc. Enquanto isso, ligo meu PC e, novamente, ouço o RC7.

 
Publicado na Antologia "Contos da Madrugada" - Julho / 2010